Mulheres e homens: iguais na diferença

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Até o final da década de 20 do século passado, mulher não votava. Quase 100 anos depois, o Brasil pode ter uma presidente do sexo feminino, a ministra Dilma Roussef.
Não cabe neste espaço detalhar a trajetória da mulher aqui no Brasil, mas recordemos que na entrada do século passado ainda eram comuns os casamentos arranjados. A mulher não escolhia seu marido.
Mulheres não trabalhavam fora e aquelas que o faziam, ali pelas décadas de 50, 60, não eram bem vistas pela “sociedade”. A mulher séria laborava no lar, para marido e filhos.
Era incomum mulheres em posição de mando dentro de empresas. Quando acontecia, o preconceito sexista falava alto e grosso e atribuía a conquista feminina a algum envolvimento romântico com alguém poderoso.
A mulher não podia ter carreira profissional regular porque era dela somente a atribuição de cuidar da casa e dos filhos. O marido chegava cansado do trabalho e só almejava descansar e ser bajulado.
A década de 60 chegou. Com ela, o feminismo. As mulheres queriam viver plenamente. Nada mais foi como antes. Muita bobagem foi feita. Houve exageros. Voltar ao que era, no entanto, é impossível.
Homens e mulheres ficavam casados a vida toda. Era isso ou suportar o estigma de desquitado. O divórcio, hoje, é realidade. Comum, inclusive, entre crentes. Sempre doloroso, principalmente quando há filhos, tem sido cada vez mais a saída de casamentos sofridos. Sempre acharei mais saudável duas pessoas que não se suportam mais seguirem caminhos diferentes.
Mulheres, hoje, têm suas carreiras profissionais. Grandes empresas multinacionais são conduzidas por mulheres. Mulheres governam países. O casamento não é como era. O homem não é mais o único provedor. Há algum tempo, era comum ouvirmos de alguns homens mais “moderninhos”: “O salário de minha mulher é pra ela comprar as coisas dela. As contas quem paga sou eu”. Esse tempo acabou.
Casais dividem despesas e trabalho. No lar, trabalham os dois. As creches não provocam mais sentimento de culpa nas mulheres. É cada vez mais usual mulheres deixarem para ter filhos depois dos 30 anos, com a vida profissional consolidada.
Este é o século 21 nas grandes metrópoles. Não há sentido em se falar, hoje, em submissão, como muitos ainda defendem a partir de leitura literalista do texto bíblico.
A palavra está mais do que desgastada, mas não há outra: a mensagem bíblica precisa ser contextualizada. Aliás, nunca entendi porque contextualizamos algumas passagens bíblicas e outras, não. Mulheres falam em igrejas (menos naquelas comunidades mais obscurantistas) e há proibição na Bíblia quanto a este ato (1Co 14.33-35). Os intérpretes são quase unânimes em descartar a interpretação literal, no que fazem muito bem. Essa deveria ser a regra.
Mulheres e homens são parceiros. O casamento para se sustentar depende de investimento e disposição do casal. Muito pouca gente mantém-se dentro do matrimônio para dar satisfação a terceiros. Casais permanecem casados quando há amor, respeito, preocupação mútua com o bem-estar e amizade.
As mulheres conquistaram tudo o que havia para ser conquistado. Homens e mulheres são iguais, apesar das gritantes diferenças. E é muito bom que assim seja.

Diáspora

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Povos na diáspora lembram membros de igrejas que saíram de suas comunidades de origem por enfrentarem problemas com líderes autoritários.
Por associação, tiranos políticos são semelhantes a tiranos religiosos.
Criarei personagens para contar minha história. Qualquer semelhança com fatos verdadeiros é proposital.
João, aos 20 anos converteu-se em uma igreja evangélica histórica (o rótulo pode ser escolhido: tradicional, conservadora etc). Não tinha lá muita noção do que era ser evangélico. Naquela igreja aprendeu.
Casou-se com uma menina da igreja. Os pais começaram a se interessar pelo Evangelho e até seu irmão, antes avesso à mensagem de Jesus Cristo, um dia atendeu o apelo feito pelo pastor.
João tem 45 anos, é diácono da igreja. A esposa, além de excelente musicista, lidera as mulheres da igreja. O casal tem dois filhos adolescentes, ambos integrados ao trabalho eclesiástico. Há muita gente na igreja de João com história parecida com a dele.
A igreja de João fará 50 anos. Metade da história de vida da comunidade, João viveu. Seus sogros vieram de outra igreja para, juntamente com outros, fundar aquela há cinco décadas.
O pastor que dirige a comunidade o faz há 40 anos. É homem sério, íntegro, de outro tempo. Não entende muita coisa que vê. Ensinou a igreja a pautar decisões na Bíblia. “Deus nos fala através da Palavra. Quando fala em nossos ouvidos, não é ele que está falando. É nosso cérebro nos pregando peças”, dizia sempre como advertência.
Em 50 anos, a igreja chegou a 456 membros. Cresceu em tempo difícil, anterior à sanha neopentecostal em época que teologia da prosperidade era novidade.
“O pastor está cansado, não acompanha os jovens, precisamos de obreiro vigoroso. A igreja deve acelerar o crescimento”. Um diz, dois dizem, muitos dizem e chega o momento em que o velho pastor se aposenta (ou é aposentado) e um novo líder toma à frente do rebanho.
João não achou que a escolha fora bem conduzida. Escolheram um homem que só demonstrou eloquência vazia, simpatia forçada e muita vaidade. O novo pastor era o oposto do antigo e, por isso mesmo, a igreja o escolheu.
No primeiro ano, o pastor deu especial atenção ao trabalho jovem. A igreja vivia lotada. Cem novos membros juntaram-se aos 456 que lá estavam. Mais da metade desses 100 vieram de outras igrejas, sedentos de novidades.
No segundo ano, o novo pastor começou a mudar várias organizações da igreja. “Meus irmãos, não podemos usar métodos do século 20 no século 21. A igreja precisa mudar”. Os líderes achavam que o pastor estava certo. Os poucos que discordavam saíram. Sem traumas.
João saiu na primeira leva. A família resistiu. Foi para outra igreja do mesmo grupo, em bairro próximo. Lá ouviu que no começo do terceiro ano de pastorado de seu ex-líder este reuniu a igreja para informar que Deus lhe dera uma visão. A partir daquele momento, implantaria a visão que o Senhor lhe concedera. A igreja decidiria, mas se ele não pudesse fazer o que Deus lhe pedia deixaria o pastorado.
O novo pastor era homem de Deus, mas já havia manobrado nos bastidores e sabia que imporia sua vontade. Os novos membros, a turma silenciosa que frequentava a igreja e alguns que ganhariam muito com a implantação de seu império garantiriam a vitória da “visão de Deus”.
Nos próximos meses, João veria chegar à sua nova igreja velhos companheiros de luta. Na nova igreja, o grupo seria visto sempre junto, conversando sobre assuntos da velha igreja. Relembrariam os bons tempos, falariam com saudades de programações que conduziram, não esconderiam a mágoa que nublaria seus corações.
A outra igreja crescia. Dobrara o número de membros. Imitava descaradamente a metodologia da mãe de todas as igrejas picaretas. “Vocês nasceram para prosperar, ficar ricos, ganhar muito dinheiro. Deus tem horror à pobreza. Abomina doença. Gente doente é gente sem fé. Sou saudável e troco de carro todo ano por causa disso. Não quero contrariar meu Senhor”. E o povo mugia feliz.
Povos na diáspora lembram membros de igrejas que saíram de suas comunidades de origem por enfrentarem problemas com líderes autoritários. Vivem em grupos, lembrando-se do passado, sem jamais se integrarem completamente na nova pátria.

Defesa de Deus

sábado, 9 de janeiro de 2010

Karen Armstrong, autora de The case for God, livro que faz uma “defesa” de Deus, diz na revista Época que “Os novos ateus são teologicamente iletrados. Como os fundamentalistas religiosos, eles infantilmente concebem Deus como um ser poderoso que os homens não conseguem enxergar”.
Teologicamente iletrados somos quase todos nós.
Escrevo sempre a partir do que vi/vejo acontecer dentro do grupo ao qual é filiada a igreja em que me congrego, mas não tenho ilusão alguma de que em outros grupos a situação seja diferente.
Frequentei o seminário maior de meu grupo em duas ocasiões: começo das décadas de 80 e de 90. Em 10 anos constatei a queda de nível do ensino teológico. Na década de 80 estudei em um seminário com problemas semelhantes ao de outras instituições de ensino. Em 1990, me sentia participando, na maioria das aulas, de uma grande Escola Bíblica Dominical. Não gosto nem de imaginar o que é, hoje, a Casa de Profetas.
Em um seminário formam-se os que liderarão igrejas e os que alcançarão cargos elevados nas instituições que regulam a vida das comunidades de fé. Se são malformados, capitanearão igrejas incapazes de entender a simplicidade da mensagem do Evangelho e conduzirão seus grupos para o abismo.
O que fazem pastores medíocres, preguiçosos, avessos ao estudo? Têm uma visão. As orientações para o desenvolvimento da visão vêm diretamente de Deus ou de um mentor que teve visão semelhante, se deu ao trabalho de implantá-la e, posteriormente, faturou com ela. Poderia citar vários nomes, mas, sei lá, pode ser que alguém leia este texto e resolva me processar. Não estou podendo me envolver com rábulas.
Pastores medíocres são a grande maioria em um universo que, sim, tem excelentes homens e mulheres cumprindo seus deveres com brilho.
Em época de seminário, vi colegas recolhendo dos escaninhos onde os professores deixavam os trabalhos corrigidos, obras alheias bem avaliadas, que serviriam de matriz para as suas futuras tarefas. Havia um mercado de alunos produtores e compradores. A cola era livre. Esses alunos medíocres tornam-se pastores medíocres.
O inocente dirá: “Tais indivíduos não conseguirão pastorear igrejas. Deus não permitirá”. Permite. Por que, não sei, mas permite.
Os concílios são convescotes. Se for bem relacionado, o medíocre tem pouso certo. Se não houver igreja à disposição, aguarda a vez numa instituição qualquer do grupo. É simples assim.
Karen Armstrong não é ligada a nenhum grupo religioso. Foi freira há algumas décadas. Hoje, crê em Deus. Acredito que muitos agem desta forma, hoje em dia.
A maioria, no entanto, por ser teologicamente iletrada, seguirá crendo em líderes medíocres. As igrejas continuarão crescendo numericamente, as massas nômades, que circulam de líder em líder, aumentarão e o descrédito da igreja entre os que usam um pedacinho do cérebro atingirá nível altíssimo.
Tudo isso é natural em uma cultura de valorização da mediocridade. Pouca gente lê e quando o faz gasta tempo com cabanas, paulos coelhos, símbolos secretos etc. Como é natural, quem sou eu para não aceitar. O que não aceito é quando afirmam que isso tem a ver com Deus. Aí, francamente, me emputeço.

Intolerância cristã

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Religião, presunção e arrogância andam de mãos dadas. Há pouco, li sobre a reação de alunos cristãos do Distrito federal a aulas que propunham conhecimento mais abrangente de religiões afro-descendentes, e o repúdio à representação de imagens próprias do candomblé, que culminou no afastamento do professor. (*)
Houve certo exagero, sim, do docente, mas sigo pensando ser válido o ensino religioso nas escolas, sem que, contudo, impregne-se a cabeça do aluno com uma só vertente, seja qual for. Sigo pensando que bom é conhecê-las todas – todas quanto possível for. A educação religiosa pode ser uma poderosa ferramenta na construção de uma sociedade mais tolerante, mais inclusiva e de relacionamentos interpessoais verdadeiramente laicos.
É de extrema importância que nós, cristãos, despertemos para o fato de que a nossa verdade é verdade somente para nós, e que os que nos cercam têm o direito de percebê-la como equívoco, cerrando um ciclo de reciprocidade.
Nossa intolerância apenas gera, cada vez mais, igual intolerância por parte das religiões que há séculos reprimimos no cristão ocidente. A igreja convenientemente ignora pontos salutares da pós-modernidade como aceitação, tolerância e respeito à individualidade e ao pensamento oposto, fomentando um séqüito que se opõe de forma pertinaz a tratamentos mais igualitários na sociedade.
Seria interessante que as nossas crianças fossem municiadas de instrumentos que as possibilitassem notar que possivelmente suas famílias as instruem no cristianismo porque fomos colonizados e catequizados por um reino que se submetia a Roma. Se a história fosse outra, como foi para muitos outros povos, outra seria nossa fé, e, portanto, é preciso respeitar e bem-viver com histórias diferentes.
Meu Cristo não é um orixá, mas se meu semelhante o vir como tal, então que com ele se relacione de tal forma, seja no terreiro de candomblé ou no templo de uma denominação evangélica, porque, sim, há muitos evangélicos que, tendo feito suas oferendas, esperam receber da divindade que reverenciam os favores de exclusivo interesse que a este rogam. Não é isto parte do rito do culto afro? Qual a diferença? Os nomes? A liturgia?
Ser cristão, portanto, nada significa. Ser evangélico, ser católico nada é. Templos e terreiros têm a mesma finalidade e seus rituais religiosos por diversas vezes se confundem.
Deus não vê religião, não ouve músicas, não aplaude danças, não cabe em templos de concreto, não pode ser mensurado, domesticado, loteado ou formatado pelo homem. A humanidade não contém Deus e muito menos o esquadrinhou. Na verdade, muito pouco o compreendeu.
Sabe Deus de todas as coisas, sonda, ele, todos os corações e conhece os pensamentos. Comprou, ele, para si todas as nações, todas as raças, todos os ritos e todas as compreensões.
Acredito, sim, num só caminho, mas também em muitas formas de caminhar, e num só julgador de todos os passos e corações. Acredito na salvação do homem somente por meio do filho de Deus, seja encontrando-o nos templos ou nos terreiros. Ele é senhor das trevas e da luz e ouve clamores no mais alto dos montes e nos mais profundos abismos.
Pode ser que os intolerantes cristãos arianos tenham que curvar-se diante de um Deus negro que escolhe para si um culto com muitos atabaques e tambores.
Se a nossa sociedade conseguir que as crianças reflitam em múltiplas possibilidades, estaremos construindo um futuro mais humano, e se nós, cristãos, atentarmos para o fato de que não somos senhores de Deus, estaremos nos tornando mais parecidos com Cristo.

Igreja: legal, mas uma droga

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Converti-me em 1975.
Diria melhor se afirmasse que a partir de 1975 passei a frequentar, regularmente, uma igreja.
Experiência sobrenatural na conversão? Bom, parei de fumar naquele dia e senti um desejo imperioso de atender o chamado que o pastor fazia para que fossem à frente os que aceitavam a Jesus como Salvador e Senhor. Não, não tinha a menor ideia do que era “aceitar a Jesus” nas bases que eram apresentadas.
Se naquele dia não houvesse ido à frente, como seria minha vida, hoje? Tenho convicção de que, necessariamente, não seria pior do que é. E aqui não reclamo da vida. Deus tem sido bastante generoso comigo.
Hoje, sigo comparecendo à igreja. Não tão regularmente. Sem engajamento. Consciente de que a igreja evangélica não oferece nada de novo à sociedade. É irrelevante.
Nos últimos 35 anos, passei por todas as fases por que passam aqueles que ingressam em um sistema religioso. Entendo que vivo ótimo momento de minha vida evangélica. Posso estar enganado, mas tentarei explicar.
Meus irmãos de fé, geralmente, relacionam seus momentos mais produtivos ao início da caminhada evangélica. Sob o estrito ponto de vista da igreja local, é verdade. É tempo de paixão e ignorância. E também de muita operosidade.
O evangélico com alguns anos de estrada e que já não tem a disposição de alguns anos antes, clama, culpado, ao Senhor: “Quero voltar ao primeiro amor”. Eu, não. (O texto em Apocalipse não tem o sentido imposto a ele, mas aqui não é o melhor espaço para discutir essas filigranas.)
Quando entramos em uma igreja (os que vêm de fora, porque há os que nela foram criados) o fazemos de olhos fechados e coração arreganhado. O mínimo que esperamos encontrar é um grupo diferente daquele que deixamos para trás. Isso não acontece.
Se tenho um grande arrependimento foi o de ter deixado para trás amigos que fiz. Ninguém nos diz para abandonarmos os amigos do passado. Ao contrário, somos incentivados a evangelizá-los. Na prática, isso é impossível. Há 35 anos as programações nas igrejas eram voltadas para dentro.
Lembro-me de aos domingos, no caminho da igreja, encontrar amigos e conhecidos indo para o futebol, a praia... Oito da manhã eu estava na igreja. Depois de EBD, culto e ensaio de coro, chegava em casa às 14h, almoçava, descansava e às 17h estava de volta para só retornar ao lar pelas 23h. Durante a semana, trabalhava e estudava. Sábados sempre havia atividade na igreja. Não era desagradável. Gostava muito da agitação. Poderia, no entanto, ter distribuído melhor meu tempo. Perdi contato com amigos e família por causa disso. É o primeiro amor.
A igreja não é composta de um grupo diferente. E aqui afirmo que igreja nenhuma é. Quem está dentro diz logo para os que chegam: “Não olhe para os irmãos. O modelo é Jesus. Ele jamais o decepcionará.” Se você desprender-se do gado perceberá que sua relação tem de ser mesmo com Deus. À sua volta os santos agirão como os perdidos. Na fase da paixão, nada será percebido. O apaixonado tudo releva. É um imbecil. A esta fase da vida cristã chamam, nas igrejas evangélicas, de a do primeiro amor. Ao se livrar dela, só desejarão a ela retornar os descerebrados.
Passado o primeiro amor, a vontade é de cair fora. Se ainda não formamos vínculos com os de dentro, tomamos o caminho da rua; se ficamos, nos transformamos em cínicos.
A igreja é nosso espaço de convivência. Os amigos do passado foram esquecidos. Seus amigos, agora, estão ali. A menina que você cobiça senta-se três bancos à frente do seu. O português foi esquecido, seu idioma é o evangeliquês. O sentimento de pertencer a um grupo é muito confortável. Dentro da igreja, se somos operosos, temos prestígio. Elegem-nos para ser coordenador geral do departamento de qualquer coisa. Poder é bom, mesmo um poderzinho de nada.
Há quem pare neste estágio e nele permaneça até a morte. As estranhezas são deixadas de lado, as incoerências percebidas são varridas para um canto do cérebro.
Pouco mais da metade de minha vida evangélica, vivi neste estágio e talvez ainda estivesse nele se o acaso não me levasse, no final da década de 80, a trabalhar em uma empresa da instituição evangélica a que minha igreja pertence.
Do final da década de 80 para cá, aprendi duramente como podem ser calhordas os líderes religiosos. Há calhordice maior do que a distorção do conceito do “ungido de Deus” explorado por pastores autoritários?
Habitualmente, ia a outras igrejas ouvir pastores diversos. Participava de palestras, frequentava congressos, respeitava os “servos de Deus”. Se alguém quiser arranjar confusão comigo, nos dias de hoje, basta me convidar para este tipo de atividade. Tomei aversão.
Conheci, profissionalmente, dezenas de homens que vivem à frente de igrejas e percebi neles algumas características alarmantes: vaidade extremada, egoísmo mórbido, cupidez desenfreada, ignorância jumentina e maldade, muita maldade.
É verdade que nesses anos conheci gente admirável, mas em muito menor número do que gostaria.
Quem priva de minha intimidade, sabe que estou longe de ser modelo de qualquer coisa, mas assim como não procuro para me ensinar matemática quem sabe menos da matéria do que eu, não posso perder tempo precioso de vida dando atenção a hipócritas que só falam e não vivem.
De qualquer forma, sigo em frente e permaneço na igreja, confiante em que Deus me mostrará o sentido de todas as experiências que vivi dentro da comunidade de fé. Não desejo voltar ao primeiro amor, o da fé cega, nem ao tempo do conformismo. Quero, sim, passar a um outro estágio: o de ser parte de uma igreja relevante, sendo eu relevante, também.

Madrugada insone

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Da madrugada fui, sou e serei. Noturno: escrevo, trabalho, vejo TV (programação gravada, sacumé) até o dia raiar. Recolho-me depois de ouvir o recado edificante de Ana Maria Brega na abertura de seu instrutivo programa.
Nas madrugas sem trabalho, zapeio descontrolado entre os 983 canais da SKY. Se fui mau durante o dia, assisto, sem critério, os alucinados telepregadores. Desde o aloprado de jaleco branco da gruta do amor (penso logo sacanagem à menção dessa gruta e tenho de pular pra outro) até o sempre enfurecido Malafaia.
Escuto um pouquinho o que me falam, presto atenção nos língua solta que conheço pessoalmente e, invariavelmente, amanheço com Waldemiro Santiago. Gosto desse cara.
Waldemiro não é pregador para meu consumo pessoal. Na igreja que frequento, estou satisfeito. O pastor que me tira de casa não é pilantra (juro, é verdade) nem estupra cérebros.
Waldemiro Santiago tem carisma e me parece sincero. Prega e o povo o entende e atende. Não é simples ser simples.
Pregadores, geralmente, seguem um de dois caminhos mais comuns. Podem preparar (ou vampirizar) um sermão feijão com arroz, cuspir obviedades bíblicas e se fazerem de estudiosos da Palavra (o lusitano com 456 doutorados segue essa linha) ou posarem de servos indignados e ferirem nossos ouvidos com gritos entremeados de papagaiadas. Têm público, claro.
Waldemiro conversa com sua plateia. Chora pitangas, denuncia que sua igreja está sendo perseguida e ressalta sempre a origem humilde. Bom mineiro, usa o falar caipira a seu favor. Edir Macedo, arauto da prosperidade, “escreve” livros sobre tomada de poder secular pela igreja e busca sofisticar-se. R.R. Soares fala a um público simples, mas também gosta de mostrar-se mais envernizado do que é. O título que colou à própria imagem, missionário, é descarada falsa humildade. Waldemiro parece que quer fugir dessas armadilhas.
Em suas pregações, usa a Bíblia para referendar sua palavra. As imagens são simples, óbvias, mesmo, e consegue o que é aspiração de todo comunicador: comunicar-se.
Faz o estilo paizão: carinhoso e severo. Abraça sem timidez. Movimenta-se entre o povo como um igual, deixando claro que igual não é. É o cara. Cheio de erros, falhas, mas surge para a multidão como esperança de tempos melhores. E o tempo melhor do público de Waldemiro não é aquele em que terá dois carros importados, como a plateia universalista. Ali, no tempo melhor, haverá força para a sobrevivência.
E os milagres que acontecem na Igreja Mundial do Poder de Deus são verdadeiros? Não sei. Cabe às autoridades verificarem e denunciarem, caso não sejam.
Gosto de ver Waldemiro Santiago tratar o povo com carinho. Na maioria das vezes, é só isso que o povo quer.
Pastores, hoje, têm horror de gente, principalmente pobre. Waldemiro talvez seja igual a estes, mas, se é, finge bem. (UCS)

Carlin e a bolsa de valores da religião

sábado, 22 de agosto de 2009


Sou muito ligado à sociedade norte-americana, por isso descobri agora, 13 meses depois, que George Carlin faleceu vitimado por uma parada cardíaca. Uma pena – sem deboche. O comediante preferido dos ateus era ácido em suas críticas às religiões. Conheci-o via YouTube e, longe de me ofender, diverti-me com muitas de suas felizes e corretíssimas colocações. Somente a hipocrisia e a ignorância podem impedir que nós, crédulos, admitamos a coerência do seu raciocínio. Carlin duvidava com veemência da existência de Deus e tinha o direito de fazê-lo.
Ateísmo é a religião da auto-suficiência, a religião de quem não tem necessidades e é emocionalmente bem resolvido ou, ao menos, que tenta ser. Ateísmo é a religião de quem se aplica a raciocinar e acredita fortemente que tudo se resume à razão, limitando-se à capacidade da compreensão humana. Como todas as demais religiões, merece respeito.
Não obstante à consideração que reservo aos ateus, admirei George Carlin pelo simples fato de perceber que fez o mínimo que se espera de um apologista – não se limitou a repetir ataques vazios, mas se aplicou razoavelmente em conhecer algumas doutrinas para então contestá-las com contradições e dúvidas.
As contradições cristãs são mesmo infindáveis, e inutilmente gasta-se quem tenta acobertá-las ou justificá-las. São frutos humanos de razões e atos igualmente humanos. Não tocam os Céus, não maculam a imagem do divino, senão a imagem do homem e de suas instituições religiosas. O engano que não se poderia cometer no ateísmo, no entanto, é justamente o preferido – confundir e mesclar o homem, suas doutrinas e suas instituições com Deus, fazendo-os um só objeto de infâmia.
À imagem e semelhança de Kant e Nietzsche muitos propositalmente fazem esta fusão com a finalidade de desconstrução de um sistema opressor que lhes inflige culpa. (Jo 3.20) Não há o que possa ser dito a esse tipo de ateu.
Acredito, contudo, na existência de um ateísmo autêntico, que percebi em Carlin que, muito além da piada pronta da religião cheia de contradições, enxergou as infinitas dúvidas que surgem mediante às poucas informações que possuímos a respeito da origem e do destino da existência. Esse é o ponto que mais interessa no ateísmo: as dúvidas. Nunca certeza, porque se dissermos certeza, senão para nós mesmos ("guardarás tua religião para ti mesmo!"), incorremos no mesmo erro, crédulos e incrédulos, abraçando a arrogância e a presunção.
Ao dar-se o benefício da dúvida, o homem dá-se também os benefícios do respeito mútuo e da escolha segundo sua capacidade perceptiva, quando, por razões exclusivamente intelectuais – jamais por conveniências –, abraça uma crença, ainda que seja a de em nada crer, porque, sinceramente, precisamos admitir que tudo se resume à fé, necessária também para crer na abiogênese e na sua sucessão gloriosa de coincidências evolutivas de Darwin.
Se ateus e evolucionistas espirituais estão corretos, todos nós rumamos juntos a um nada, comum aos crédulos e incrédulos. Se, por outro lado, monoteístas cristãos estiverem certos em suas mais primitivas crenças e verdadeiramente existe um Deus no céu que a tudo criou e deu finalidade, e também enviou seu filho para remissão dos que nele crêem, então a coisa vai ficar muito feia, e nada engraçada, para George Carlin. Quando penso nele e em tantos outros ateus, lembro do que faz o investidor com seus bens, aplicando-os onde pode obter maior rendimento, livrando-se, ao máximo possível, dos riscos. O ateu é, segundo essa analogia, o investidor que aplica seu maior bem em uma crença com poucos rendimentos e muitos riscos.

Desrespeito à Bíblia

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Papa sentiu-se ofendido por uma galeria de arte que permitiu que vandalizassem um exemplar da Bíblia Sagrada. Sob o título ‘Feito à Imagem de Deus’, a exposição que causou horror na cristandade européia tinha como objeto central uma Bíblia sobre a qual os visitantes puderam escrever mensagens, comentários jocosos, fazer desenhos obscenos e afins. Duvidando que alguém o fizesse, o Papa desafiou que o mesmo se repita ao Alcorão.
Qual é, seu Bento XVI? Já dizia o sacro ditado cristão: “quem tem, tem medo” – é claro que ninguém vai promover o mesmo achincaclhe ao Alcorão. Em suas fileiras, o islamismo mantém radicalistas que defendem e promovem até suicídio como arma contra os infiéis. O Cristianismo prega, no máximo, perdão e amor. Pelo menos neste século.
Radicalistas são indivíduos anencéfalos que enfileiram qualquer seguimento religioso e que, durante séculos, infestaram o cristianismo promovendo o terrorismo medieval a todos quantos fossem julgados hereges e pagãos.
Embora já se vá distante a data em que Galileu se viu condenado ao confinamento por simplesmente crer que a terra se move, esse sentimento de vitupério em nós pelos tais rabiscos não é claro vestígio dessa praga no cristianismo?
O radicalista é extremista porque é insano, e, francamente, é insano ofender-se com rabiscos numa Bíblia. Trata-se de um livro como outro qualquer e que, creiam, não vai herdar o Céu. No Paraíso não haverá exemplares das Bíblias do Silas Malafaia ou do Russell Shedd . A Bíblia só é diferente quando torna-se Palavra de Deus. E só torna-se Palavra de Deus quando quem a lê, ou mesmo a ouve, a recebe como tal. A Palavra não passará jamais. A Bíblia, sim!
Clique e leia o artigo em o Correio da Manhã - Portugal

Morrerás e não viverás

domingo, 12 de julho de 2009

Os sonhos de Deus para o homem
Alguns ditos populares do evangeliquês nosso de cada dia são catastróficos, não exatamente pela agressão de seus absurdos exegéticos, mas pela ampla aceitação que conquistam no coração e na mente dos incautos. Um desses ditos, que facilmente viram adesivos de pára-brisas, é: “Não morrerei enquanto o Senhor não cumprir em mim seus sonhos”.
É verdade que ninguém há que possa impedir as ações de Deus ou mesmo coibir suas intenções, e, nisto, estão corretos os que, com brados vitoriosos, lançam mão desta frase.
O problema é que facilmente os ditos sonhos de Deus são distorcidos em sonhos e anseios exclusivos do mesquinho coração humano, montando-lhe uma potencial bomba de desânimo, desequilíbrio e morte, acionada por frustrações desencadeadas por desejos e metas que jamais se cumprirão.
Muito dificilmente esse dito é levado a púlpito deixando-se bem claro que também esses tais sonhos de Deus possam ser completamente adversos aos nossos. Deus também diz não, e é possível que entre seus desejos esteja também o desejo de morte.
Para a teologia de mercado, onde tudo sempre vai dar certo segundo nossos desígnios, um personagem áureo é Ezequias, o afamado rei de Judá que, tendo adoecido, ouve do Senhor que morrerá e não viverá. A teologia por de trás do “não morrerei...” exalta o rei Ezequias por causa de sua ‘bem sucedida’ oração que fez com que Deus lhe acrescentasse 15 anos de vida.
Ezequias é um marco na linhagem real de Judá. Antes, somente o Rei Davi, depois, nenhum outro pôde ser a ele comparado em termos de fidelidade e relacionamento com Deus. Ocorre, no entanto, que Ezequias poderia ser muito maior do que é, e nisto mesmo consistia o desejo de Deus para sua história – a coroação de uma vida que andou diante dele em verdade e com coração perfeito, fazendo o que era bom aos seus olhos.
Ferindo de morte o rei, Deus desejou isolá-lo historicamente de uma linhagem imunda, cuja fidelidade e compromisso com ele eram mais instáveis que as relações com reinos vizinhos. Como não tinha filhos, Ezequias seria esquecido na linha de sucessão. Morreria e não viveria.
O rei não foi capaz de entender o sonho de Deus para si, porque era sonho de morte. O tempo voltou 40 minutos, mas Berodaque-Baladã pôs os olhos nas riquezas do templo, e Manasses nasceu para cobrir de vergonha o nome e as obras de seu pai.
Morrerás e não viverás – contudo, um outro rei disse sim.
Mesmo diante da grande agonia que lhe fora proposta, aceitou os sonhos de Deus: “Aba, Pai, todas as coisas te são possíveis; afasta de mim este cálice; não seja, porém, o que eu quero, mas o que tu queres.” Eis o verdadeiro exemplo a ser seguido, a antítese da enaltecida gafe de Ezequias, mas cada vez mais execrável pela teologia do triunfalismo.
Sim! Que realizem-se em nós os sonhos de Deus, mas que também perseveremos nisso ainda que sejam sonhos de naufrágios, prisões e martírio. Que verdadeiramente não morramos enquanto não se cumpram seus desígnios, mesmo que sejam adversos aos nossos, e ainda que sejam exatamente desígnios de morte. Quando estivermos na situação do rei Ezequias, que também nos voltemos contra a parede mas que digamos a ele que não seja feito o que nós queremos, mas o que ele quer.

"O nosso Deus está nos céus e faz tudo o que lhe apraz" Salmo 115.3

João Hélio

quarta-feira, 1 de julho de 2009



Somos homens de bem. Nós Lembramos!

Nem todo o que me diz: irmão, irmão!

sábado, 20 de junho de 2009

Dizia a antiga canção que "se o teu coração é igual ao meu, [...] meu irmão serás". A letra tinha uma proposta antipartidarista, mostrando que cristão é quem segue a Cristo e não a uma denominação.
Verdadeiros cristãos, no entanto, não precisam de canções para saberem que Igreja e Corpo não têm absolutamente nada a ver com denominações ou instituições religiosas, contudo, as canções continuam sendo necessárias, porquanto cristãos verdadeiros são poucos, e partidaristas uma incontável miríade, "tantos como a areia da praia".
"Irmão, você é benção na minha vida"; "Irmão, eu te amo"; "Paz do Senhor entre nós, irmão!". De verdade, alguém deixaria um irmão no ponto de ônibus, sob forte chuva, tendo espaço em seu confortável carro e indo para o mesmo bairro? Alguém deixaria seu irmão ficar sem luz, telefone, dinheiro de passagem ou até mesmo comida, tendo plenas condições de supri-lo? Alguém deixaria de visitar um irmão que estivesse doente? Alguém evitaria ir à casa de seu irmão por causa de desigualdade social? Quando encerra-se a reunião dominical, facilmente percebe-se que o termo “irmão” é utilizado apenas para designar um membro, um colega de séqüito.
O irmão Ronaldo veio do Espírito Santo para o Rio. Aqui, conheceu Cristo, recuperou-se do alcoolismo e conseguiu um trabalho na igreja – ganhava o suficiente para comer e se vestir, e, em troca, trabalhava o dia inteiro. Quase todas as noites também, em tudo que fosse necessário.
Não era estúpido, havia perdido um bom emprego na Odebrecht e sua família somente por causa do vício, e, embora soubesse que não recuperaria seu status quo, pôde ainda iniciar-se em uma nova profissão. Abriu um pequeno negócio de informática, alugou uma modesta casa e trouxe de volta sua família. Estava feliz, havia recuperado sua dignidade.
Achou-se no direito de deixar o trabalho de mais de uma década na igreja – sem levar um vintém sequer – para dedicar-se integralmente ao seu negócio. Cometeu terrível engano.
Pouco tempo depois foi acometido de um derrame que paralisou parcialmente seus movimentos, o suficiente para comprometer suas habilidades, além de dificultar novos contatos pela mudança em sua aparência.
Achou que poderia contar com seus irmãos. Outro engano. Ronaldo não tinha mais a mesma utilidade para a igreja, ficou lento e complexo na fala. Não servia mais. Ganhou uns trocadinhos e muito desprezo.
Quatro anos depois, sob muitas pás de terra, sozinho num quarto de uma oficina que lhe fora cedido, sofreu a primeira parada cardíaca numa manhã. Outras duas se sucederam até que o único irmão que não o abandonou notasse que havia algo errado com Ronaldo, que já não tinha mais voz para pedir socorro. Era tarde demais quando, à tarde, deu entrada no hospital.
Ao menos restou aos muitos outros irmãos e aos familiares a última despedida, a última mostra pública de consideração e estima. Outro engano. Foi enterrado quase sozinho. Eu estava lá, mas lembro muito bem que lhe disse que não iria mais lhe emprestar os ouvidos para ouvi-lo blasfemar. Ainda bem que aquele de quem meu irmão blasfemava, nunca, em momento algum o deixou, antes prometeu que estaria com ele todos os dias, que não o deixaria nem o abandonaria. Se fizesse sua cama no mais profundo abismo, ali estaria. Se subisse o mais alto dos montes, ali também estaria.

Irmãos, de verdade, cristãos, de verdade, são pouquíssimos.

"Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! entrará no reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade". Mateus 7.21-23

Fantasiemos

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Já que a proposta do meu companheiro de blog é fantasiar, fantasiemos.
Penso pouco no que será minha vida além-túmulo.
Não tenho muita convicção sobre o que é necessário para viver nas ruas de ouro do céu. Mas, para simplificar, admitamos que basta declararmos Jesus como Salvador e Senhor e nossa moradia já está garantida. Aí, mora também o problema: se no céu eu reconhecer algumas pessoas cotadas para lá viverem, no céu não estarei.
Será céu se o céu for do tamanho do Planeta Terra, pelo menos. Eu, reconhecendo os salvos, vou ter minha casinha em uma rua qualquer da Bolívia celeste. Alguns ex-chefes morariam na Sibéria celestial e, por toda a eternidade, jamais nos encontraríamos. Não só ex-chefes, porque de chefe só um tipo muito desprezível de pessoa gosta.
Os amigos morariam nas vizinhanças. Todo fim de semana o Evil faria churrasco e comeríamos sem a preocupação de engordar. Chefes? Não haveria trabalho no meu céu, para que chefe? Está certo que chefe e trabalho não combinam. Chefe é bom de fingir que trabalha.
O tempo seria sempre ameno. Chuva só de vez em quando. O único tipo de música admitida seria o rock. Funkeiros, pagodeiros e sertanejos iriam prum lugar bem quente, com outra gerência.
Bom, só assim aceito reconhecer os salvos, no céu. Como suportar, por toda a eternidade, gente que mal tolero por instantes?
Está certo que algumas pessoas que se afirmam crentes me fazem conjecturar: ou elas são ou eu sou. Espero que seja eu o crente.

"Que tenho eu contigo, Jesus?"

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Não, eu não sou uma legião de espíritos e também não há uma vara de porcos nas proximidades (MC 5.1-15). Essa frase, no entanto, poderia também ser minha, não por temor, mas por um genuíno espanto ao deparar-me com Cristo no porvir, caso acreditasse na teoria da “amnésia celestial”.
Explico: é comum entre os cristãos crer que ao encontrar-se com Deus no Paraíso, ninguém mais lembrará de coisa alguma, nem de fatos, nem de pessoas.
Fantasiemos este Céu de desmemoriados: não há, obviamente, tristezas ou dores pelos entes queridos que não creram no único mediador e salvador ofertado por Deus. Não há pranto por aqueles que não se mantiveram firmes em seus propósitos com Cristo. Não há lembranças de nossas gafes teológicas, multiplas denominações e doutrinas estapafúrdias. Neste Céu, também não lembramos das hierarquias sociais, religiosas e familiares, e somos todos igualmente filhos de Deus, pois Jesus, seu poderoso Filho, nos salvou. Só não sabemos exatamente do que.
No Céu dos desmemoriados não há a alegria da salvação, o júbilo da vitória, as lágrimas de felicidade ao encontrar velhos irmãos e entes amados que antes morreram, mas que, em Cristo, venceram o pecado e a morte, e alegremente ceiam com seu Senhor na glória. Neste Paraíso de Alzheimer não vai haver aquele sonhado abraço e aquele beijo tão esperado no rosto do Senhor Jesus, seguido do nosso "muito obrigado" por tão grande salvação ofertada.
Nada de dores, nada de traumas, nada de saudades, mas também, nada de gratidão.
Assim, o Paraíso fica mais pobre, mas estamos livres de chorar por aqueles que rejeitaram o Filho do Deus altíssimo e seu magnífico sangue derramado como prova de um amor que ninguém jamais sentirá por nós. Neste Céu, preferiremos não saber quem exatamente Cristo é, para, na verdade, somente não sofrermos por aqueles que, muito menos que ele, também nos amaram.

O professor

sábado, 16 de maio de 2009



Em 1980, entendi que devia ir para o Seminário. O bom batista, no Rio, ou ia para o Seminário do Sul ou o Betel. Havia outros, mas nem eram considerados por quem desejava fazer um curso razoável. Hoje há centenas de seminários. Tudo meia bomba. Inclusive os dois citados no início.
No segundo semestre daquele ano, conheci Jerry Stanley Key. Era professor de Homilética e a primeira parte de sua disciplina estudávamos depois de seis meses de seminário.
Eu era um tímido mórbido. Já deixara o curso de História da UFF por não conseguir me apresentar à frente da turma. O trabalho final de Homilética era, lamentavelmente para mim, pregar um sermão diante da turma.
Postei-me diante dos algozes, encapsulado em terno e gravata, e, claro, fracassei. No meio do sermão, desisti do curso.
O tempo passou, dez anos depois vencera a timidez de falar em público (ainda tenho certa aversão a seres humanos). A igreja foi minha escola. Voltei ao seminário, fiz Homilética e fui aprovado com louvor.
Quando soube da homenagem que os ex-alunos de Jerry Key prestariam a ele no seminário, venci minha resistência de ir à ex-casa de profetas e, também por causa da carona do amigo Wander, fui até lá. Ótimo ter ido. Revi algumas pessoas queridas e pude participar da homenagem a um professor como já não existe naquela decadente instituição.
Jerry Stanley Key é homem ético, íntegro, conhecedor da matéria que ensinou e dedicado a seus alunos. Não foi unanimidade entre alunos. Havia quem não o suportasse. Mas não há, que tenha estudado com ele, quem não reconheça as qualidades que listei. O que, convenhamos, é muito mais do que a esmagadora maioria dos professores oferece, hoje.
Jerry Key, visto com meus olhos de hoje, parece um extraterrestre. O carinho genuíno que demonstra por sua esposa Joana (também homenageada), a identificação com o país e o povo brasileiro, sua disciplina física e espiritual são todas características que impressionam. Jerry Key conhecia tão bem o português que fazia reparos nos textos dos seminaristas desatentos. Hoje não seria vantagem. Há líderes denominacionais que não conseguem juntar duas frases e a elas dar sentido.
No encontro, realizado dia 11 de maio, falaram ex-alunos, ex-reitores, pregou o pr. Key e, no final, houve uma reunião para uma foto. Nesta hora eu saí, olhei a capela do Seminário, sentei-me no meio-fio e, como um personagem de Nelson Rodrigues, chorei lágrimas de esguicho pensando no triste fim do outrora glorioso Seminário do Sul. (Utahy Santos)

TIRANETES

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Trabalhava no Jornal do Brasil como revisor de texto. Deixei passar, por desatenção, na primeira página, Volta Redonda, em vez de Volta Grande. O texto era chamada para reportagem com o presidente milico da época. Se passasse errado, quase certamente estaria na rua. O encarregado da oficina, o lendário Jorge Cachorrão, entrou na ampla sala da revisão, veio até minha mesa e mostrou-me a prova em papel com meu erro. Depois que vi, ele amassou e jogou fora. Somente ele e eu soubemos o que aconteceu.
Aprendi com Cachorrão que não há necessidade de expor o colega.
Na década de 90, trabalhei alguns penosos meses em uma empresa evangélica. Os colegas estavam descontentes com algumas medidas tomadas pelo líder. Reunimo-nos, a ralé, e resolvemos que apresentaríamos, respeitosamente (há que ser muito delicado ao dirigir-se a ungidos, eles são melindrosos), nossas reivindicações. O pastor-chefe abriu os trabalhos e pediu aos que quisessem dizer algo que o fizessem. Eu, já com quarenta e tal, acreditei. Os colegas quedaram-se em tumular silêncio. O gordo aqui falou e dançou. Chefes (em sua grande maioria) adoram subalternos que lhes sirvam como claque.
Na década de 80, trabalhei na Manchete. Havia todo um ritual que orientava a saída das revistas para a gráfica. As semanais na frente, as mensais aguardavam. A exceção era quando havia fechamento de uma mensal. Tavares, o único chefe inteligente com quem trabalhei, me pôs na distribuição enquanto ele descia para tomar um grau. Quando voltou me pegou distribuindo Sétimo Céu. “Gordo, você é uma besta”, foi o começo. No final, acho que já estava me mandando tomar no cu (naquela época, tomar no cu não dava o cartaz de hoje). De minha parte, brindei-o com o bom repertório que aprendi nas ruas e alguma coisa que só conheci na igreja. Meia hora depois era como se nada tivesse acontecido. Homens agem assim.
Na JUERP trabalhei com um louco que foi posto pra fora de duas igrejas por indolência. Ele era chefe de quatro infelizes: eu entre eles. O idiota achava que eu telefonava demais. Para resolver a questão, soltou um memorando proibindo ligações durante o expediente. A secretária entregou o papel aos serviçais. Mais tarde ele chamou meus colegas e lhes disse que o memorando só valia para mim. Continuei telefonando até sair de lá, claro.
Concluindo, na Última Hora trabalhei durante três meses. Como no Jornal do Brasil, tinha de trabalhar sábados e domingos. Éramos 12 homens confinados em uma sala sem janela. Em compensação, o ar refrigerado nos congelava. Dez colegas fumavam. E fumavam muito. Nunca fui trabalhar sábado nem domingo. Um dia, Otávio, o chefe, me chamou e disse que se eu continuasse faltando me dispensaria. Honestamente, disse-lhe que fins de semana eu não iria. “Bom, vou segurar você uns dois meses, depois mando embora, tá ok?”, ele me disse. Não foi necessário, porque surgiu o emprego na Manchete, que era de segunda a sexta.
Não estendo a impressão terrível que tenho de chefes evangélicos para pessoas que conheci na vida “civil”, mas, confesso, no trabalho lidei com descrentes bem mais sérios e éticos do que os crentes com quem topei.

Enganadores

sábado, 9 de maio de 2009

Líderes de igrejas, de denominações e de conglomerados de fé vi de perto, trabalhando em um jornal evangélico, e de longe, pela televisão. Salvo honrosas exceções, são enganadores e, alguns, incompetentes.
Edir Macedo é um enganador, mas competentíssimo. Suas competência e inteligência transformaram a Universal em um império que, acredito eu, desmoronará depois de sua morte.
Líderes de denominações históricas, além de embusteiros são incompetentes. Ou melhor, têm a competência de saber se movimentar fazendo conchavos com parceiros que têm os mesmos interesses que eles. Direi o óbvio, porque o óbvio, nos dias atuais, não tem sido tão óbvio assim: “Os interesses desses líderes não são os de Deus”. Mas sobre os incompetentes falo depois.
Na infância frequentei cultos afro-brasileiros. O chefe de um terreiro pegou umas três filhas de santo. Foi um escândalo. Ele não morreu, mas apanhou muito dos genros de santo. Hoje, há líderes evangélicos que se servem das ovelhas como se estivessem em uma churrascaria. E não aceitam comer cupim.
Alguns artistas exigem dos trouxas que os seguem pagamento para fazer orações especiais. O primeiro dindim que o bobo recebe, referente a um dia de trabalho, deve ser dado ao líder que orará (com mais ou menos fervor, dependendo do valor ofertado) pela causa apresentada.
Todo esse engodo é revestido de palavrório bíblico. Sem fundamento, claro. Só a ignorância do gado que se senta nos bancos de igrejas explica isso.
Se um dia o gado acordar, e estudar, esses parasitas terão de fazer o que fazem os mortais comuns: trabalhar.

A multidão só quer o pão

Cada um tem o que busca. Há quem busque ser tosquiado. Há quem engorde muito com carne de ovelha magra.
O grande 'problema' do Evangelho de Cristo é sua insistência na afirmativa da necessidade do homem em relacionar-se com Deus por meio de seu filho. Relacionamentos exigem, inexoravelmente, vínculos e comprometimento, e eis aí nosso grande entrave. A sociedade pós-moderna não lida bem com compromissos e concomitantemente é profundamente mística.
Misticismos se constroem com crendices que se sustentam pela ignorância. Entende-se, portanto, porque tanto sucesso fazem as religiões de mercado. Pirâmides, duendes, cristais, incensos, anjos, cores, luzes e afins são capazes de curar, dar paz, trazer sucessos, proteger, consertar erros e mudar realidades incômodas, sejam elas quais forem, sem requererem nenhum compromisso de quem delas se utilizem.
Diante dessa realidade, as religiões concorrentes precisam recuperar o fôlego perdido. Se há uma pessoa – a pessoa -, haverá relação e compromisso, e isso é demasiadamente cansativo, a menos que se ofereçam bônus, pontuação e milhagem por fidelidade. Portanto, já é possível ser evangélico sem Cristo. É isso que se busca. Sim, queremos Cristo! Só precisamos saber que vantagem teremos.
Ninguém quer ouvir que Deus não lhe deve nada, que está no Céu e que faz tudo que lhe apraz. Queremos um Deus semelhante a nós: manipulável. Só precisamos encontrar quem, manipulando-nos, prometa-nos manipulá-lo. As palavras de Cristo são demasiadamente enfadonhas se não devidamente retificadas pelo nosso bondoso manipulador. Só ele sabe açucarar um fardo não tão leve assim. Sim! Eis nossa lã, nossos dízimos, nossas ofertas e oferendas, nossas “primícias”, nossos “desafios”, nosso dinheiro e tudo mais que se exija – dá-nos, tão somente, o poder de controle sobre a divindade que tudo pode, mas que tem a péssima mania de querer mudar-nos e fazer-nos semelhantes a ele.

Gripe Suína – Vai chegar matando

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Quando a AIDS surgiu foi chamada de Peste Gay. Imaginava-se que só homossexuais a contraíam. Religiosos ignorantes (opa, acho que isso é redundância) diziam ser a AIDS o castigo de Deus para os sodomitas. O tempo passou e os mais esclarecidos, hoje, sabem com alguma segurança as formas de contágio da doença. Digo os mais esclarecidos porque o recém-eleito presidente da África do Sul, Jacob Zuma, acha que uma boa chuveirada depois do rala e rola é suficiente para evitar o contágio. A estupidez está dominando o mundo.
Só é contaminado pela AIDS, hoje em dia, aqueles que se atiram em um grupo de risco. Gente de vida promíscua, usuários de drogas displicentes e aqueles que fazem sexo sem proteção. Se você, solteiro, usa camisinha ou dedica-se aos embates solitários, tem pouca chance de contrair o vírus HIV. Da mesma forma, os casados que, a todo custo, mantêm-se firmes e não papam fora de casa.
A AIDS, pessoalmente, não me preocupa. Uso minha espada com parcimônia e sempre contra a mesma oponente. Tenho orgulho de manter meu fiofó apenas como rota de saída, com todo respeito pelos que têm o estranho prazer de fazê-lo, também, de rota de entrada. Egoísta, entendo que são remotas as chances de eu pegar AIDS. A gripe suína, no entanto, é apavorante e me apavora. No começo do século passado, minha avó perdeu quatro filhos para a gripe espanhola.
A gripe é absolutamente democrática e o contágio pelo ar leva-a ao mundo inteiro. A espanhola matou milhões em época de transporte difícil. A gripe aviária matou milhares e foi contida pelo rigor do combate empreendido pelo governo chinês. A suína eclodiu no México e entrou nos EUA e Canadá. É quase certo que virá para cá. Nossas autoridades não conseguem erradicar o mosquitinho da dengue, imaginem se tiverem de lutar contra invisíveis vírus que se propagam pelo ar. Se o vírus desembarcar por aqui, a cada viagem de metrô tombarão dezenas. Não sei se por estar desempregado ando meio pessimista, mas acredito que a influenza porcina vai dar o que falar. E vai matar.

Primeiro, morrerão os mais próximos aos chiqueiros

Noventa por cento de chance de sobrevivência. Queria ver a ministra Dilma ter as mesmas chances caso possuísse o mesmo seguro de assistência médica que eu: Golden SUS.
O que assusta não é a certeza de que gripe A vai desembarcar em nosso protegido território brasileiro, mas a de que nossos governantes continuarão inertes frente às necessidades de um investimento sério no sistema de saúde pública, independente da pandemia que se apresente. O que assusta de verdade é saber o tipo de “medicina” que nós, que não estamos na Casa Civil, disporemos. O coágulo está de um lado, e os médicos operam do outro. Interna-se a mãe e ganha-se uma estranha para levar para casa e cuidar. Imagine essas mentes brilhantes diagnosticando uma variação do influenza H1N1.
Cedo ou tarde, a humanidade será dizimada. Ira de Deus? Não, mas o cumprimento de sua Palavra no abrir dos selos, no tocar das trombetas e no derramamento das taças do Apocalipse que, certamente, tragarão primeiramente os desfavorecidos.


Utahy Caetano
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Gordo Falante


Marcelo Belchior
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MMBelchior